
Por Tatiana Martins, jornalista na G&M News.
O poker brasileiro já não cabe apenas na imagem das mesas, fichas e torneios de madrugada. Nos últimos anos, a modalidade construiu uma indústria própria, com grandes festivais presenciais, circuitos nacionais, plataformas digitais, produção de conteúdo, patrocínios e uma comunidade profissional que ultrapassa as fronteiras do país.
Em 2026, esse movimento ganhou um componente simbólico: o Brazilian Series of Poker (BSOP), principal circuito nacional, completa 20 anos. A temporada foi desenhada para marcar a data, com seis etapas e passagens por destinos como Costa do Sauípe, São Paulo, Rio Quente e Florianópolis. O BSOP Millions, tradicional encerramento do calendário, volta a São Paulo em novembro de 2026.
O calendário mostra o tamanho que o poker alcançou no Brasil. Há espaço para torneios de entrada mais acessível, grandes Main Events, modalidades alternativas, High Rollers e experiências que combinam competição, turismo e entretenimento.
O poker deixou de caber apenas nas mesas
O crescimento do circuito brasileiro revela uma mudança importante no perfil do poker nacional. O jogador profissional continua sendo peça central, mas deixou de ser o único público capaz de sustentar grandes eventos.
O BSOP Summer 2026, realizado na Costa do Sauípe, foi um exemplo dessa estratégia. O evento ocupou cerca de 3 mil metros quadrados, contou com mais de 100 mesas e ofereceu cash game durante 24 horas. A programação incluiu torneios com buy-ins de R$ 500 a R$ 100 mil, além de diferentes variantes do jogo.
A própria organização destacou que a edição de 2026 superou os números do ano anterior. Em 2025, o BSOP Summer havia registrado 3.470 entradas e aproximadamente R$ 13,5 milhões em buy-ins; segundo o BSOP, a edição de 2026 estabeleceu novos recordes.
A escala demonstra que existe uma base suficientemente ampla para sustentar diferentes níveis de participação. O mesmo festival pode receber quem está começando, jogadores regulares, profissionais estabelecidos e competidores dispostos a investir dezenas de milhares de reais em um único torneio.
Esse modelo também ajuda a transformar o poker em um produto de experiência. Ao levar o circuito para resorts e destinos turísticos, o evento passa a envolver hospedagem, gastronomia, lazer, networking e entretenimento.
Quando o torneio vira espetáculo
A programação do BSOP também mostra como a indústria se sofisticou. No BSOP Winter, realizado em São Paulo entre 21 e 30 de julho, a grade reuniu torneios de diferentes formatos e faixas de entrada. Entre eles estavam eventos de R$ 500, o Main Event de R$ 5 mil, o BSOP Invitational de R$ 25 mil e um Super High Roller de R$ 100 mil. Também houve espaço para Omaha, Mixed Games, torneios por equipes, Seniors e outras modalidades.
Essa variedade é importante para entender o estágio atual do mercado. O poker brasileiro não depende de um único torneio ou de um único perfil de jogador. Ele funciona como um sistema com diferentes portas de entrada.
O BSOP Invitational é um bom exemplo. Criado para aproximar jogadores recreativos, empresários, personalidades e profissionais, o formato ajuda a levar o poker para além da comunidade tradicional.
É uma lógica semelhante à observada nos grandes circuitos internacionais: o evento esportivo também é uma plataforma de relacionamento, conteúdo e entretenimento.
Do Brasil para Las Vegas: uma geração que ganhou o mundo
Se o mercado doméstico ganhou escala, os jogadores brasileiros também continuam deixando sua marca no circuito internacional. A edição de 2026 da World Series of Poker, realizada entre maio e julho em Las Vegas, teve brasileiros entre os protagonistas de diferentes eventos.
Yuri Dzivielevski conquistou o título do Evento #36, o High Roller de US$ 100 mil, superando um field de 115 entradas e levando US$ 2,84 milhões. O resultado reforça o peso que os brasileiros vêm conquistando nos torneios de maior nível técnico e financeiro do circuito internacional.
Outros brasileiros também chegaram a posições de destaque. Henrique Calheiros Quintella Lessa e Breno Drumond Avelino venceram o Evento #66, o Tag Team de US$ 1.000, garantindo US$ 92.384 para cada integrante da dupla. Francisco Baruffi terminou em terceiro no Evento #15, de Pot-Limit Omaha, levando US$ 82.928, enquanto Renan Bruschi foi quarto no Evento #71, Mixed Big Bet, com US$ 53.889.
Esses resultados ajudam a colocar o cenário brasileiro em perspectiva. O país não é apenas consumidor de grandes eventos internacionais. Também produz jogadores capazes de competir no mais alto nível.
Poker e regulação: uma discussão diferente das bets
A consolidação do mercado regulado de apostas no Brasil trouxe naturalmente o poker para o debate sobre jogos e entretenimento. Mas existe uma distinção regulatória importante. A Lei nº 14.790/2023 estabeleceu o regime brasileiro para apostas de quota fixa, incluindo determinadas modalidades de jogos online. O Ministério da Fazenda, entretanto, esclarece que jogos de habilidade, como o poker, não se enquadram na modalidade de evento virtual de jogo online de aposta de quota fixa. A Portaria SPA/MF nº 1.207/2024 também exclui jogos multiapostador e modalidades peer-to-peer desse enquadramento.
Isso significa que não é correto tratar o poker como mais um produto do mercado regulado de bets. A diferença também aparece na forma como o próprio setor se posiciona. A Confederação Brasileira de Texas Hold’em (CBTH) trabalha institucionalmente com a definição do poker como esporte da mente. Em 2024, a World Poker Federation anunciou o reconhecimento definitivo do poker como esporte da mente pela International Mind Sports Association (IMSA), movimento do qual a CBTH participou.
Essa identidade esportiva ganha relevância justamente em um momento em que o Brasil discute de maneira mais ampla como regular e supervisionar atividades relacionadas ao jogo.
As mesas agora movimentam muito mais do que fichas
O crescimento do poker também pode ser observado fora das próprias mesas. Um grande festival envolve hoje uma cadeia de atividades que inclui organização de eventos, tecnologia, transmissão, mídia especializada, criação de conteúdo, turismo, hotelaria, patrocínios e experiências para jogadores e acompanhantes.
A estratégia do BSOP de levar etapas para resorts é um exemplo claro. Depois do sucesso do BSOP Summer na Costa do Sauípe, o circuito programou o BSOP Floripa para 4 a 8 de setembro de 2026, no Costão do Santinho, em Florianópolis. Será a primeira passagem do circuito pela cidade desde 2018.
O movimento aproxima poker e turismo de forma cada vez mais evidente. Para o destino, um festival pode representar vários dias de ocupação hoteleira e consumo de serviços. Para o jogador, transforma a competição em uma experiência mais ampla.
Esse modelo também abre oportunidades para marcas que talvez não tenham interesse em associar sua imagem exclusivamente a apostas. O poker, quando apresentado como esporte, entretenimento e experiência, oferece uma plataforma de comunicação diferente.
O próximo desafio é crescer sem perder identidade
O crescimento, porém, traz uma questão inevitável: como profissionalizar ainda mais o mercado sem diluir aquilo que diferencia o poker? A primeira frente é institucional. O reconhecimento do poker como esporte da mente fortalece o discurso de habilidade, estratégia e competição, mas também aumenta a responsabilidade das entidades que organizam e representam a modalidade.
A segunda é regulatória. Embora o poker não esteja enquadrado como jogo online de aposta de quota fixa, ele convive com um ambiente brasileiro que passou a dar muito mais atenção a proteção do consumidor, publicidade, prevenção e jogo responsável.
O Ministério da Fazenda vem, inclusive, desenvolvendo políticas para aprimorar os mecanismos de prevenção e redução de danos associados ao jogo problemático no mercado regulado. Para o poker, isso significa que a expansão precisa vir acompanhada de boas práticas. A separação entre competição, entretenimento e comportamentos de risco deve ser cada vez mais clara, especialmente quando a modalidade amplia sua presença digital e sua exposição junto ao público geral.
O ano 2026 marca uma virada para o poker brasileiro
Há algo simbólico no momento atual. Enquanto o BSOP comemora 20 anos, brasileiros conquistam grandes resultados em Las Vegas e o poker amplia sua presença entre atletas, empresários e personalidades, a modalidade também ganha uma estrutura institucional mais definida.
O calendário de 2026 resume bem essa evolução. Depois das etapas de São Paulo e Rio Quente, o circuito passa por Florianópolis em setembro e retorna a São Paulo para o BSOP Millions, entre 13 e 28 de novembro.
Mas talvez o principal indicador de maturidade não esteja apenas no número de torneios ou no tamanho das premiações. Está na diversidade do ecossistema. Existe espaço para o profissional que vive do jogo, para o recreativo que participa de um festival durante as férias, para o empresário que encontra no poker uma oportunidade de networking, para o atleta que transforma a modalidade em hobby e para o público que acompanha as transmissões e os conteúdos produzidos em torno das competições.
O poker brasileiro cresceu porque conseguiu construir esse espaço entre mundos diferentes. Agora, o desafio é transformar essa escala em uma indústria cada vez mais profissional, sustentável e reconhecida sem perder a característica que fez o jogo conquistar sua comunidade: a combinação de estratégia, competição e imprevisibilidade.







