
Por Tatiana Martins, jornalista na G&M News.
O mercado brasileiro de apostas passou os últimos anos concentrado em regulação, certificações, compliance, pagamentos e tributação. A MP mudou radicalmente esse cenário. Na sua avaliação, o setor se concentrou demais na dimensão técnica e deixou a política em segundo plano?
Sem dúvida. O setor operou sob uma espécie de “miopia regulatória”. Houve um esforço monumental e louvável para construir uma arquitetura técnica robusta, atendendo a exigências de certificação, compliance financeiro e meios de pagamento, mas ignorou-se o fato de que a regra do jogo não é decidida em um vácuo técnico. A norma legal é, fundamentalmente, um ato político. Ao focar exclusivamente na conformidade operacional e negligenciar a leitura do cenário público, o mercado ficou exposto. A Medida Provisória deixou claro que a técnica garante a operação diária, mas é a inteligência política e institucional que garante a sustentabilidade e a sobrevivência do negócio no longo prazo.
A MP foi publicada em meio a forte pressão pública sobre as apostas, envolvendo temas como endividamento, saúde pública e proteção das famílias. As empresas e entidades do setor poderiam ter antecipado essa mudança de ambiente?
Sim, poderiam e deveriam. Intervenções estatais de sobressalto não surgem do nada; elas são gestadas pelo aumento da temperatura social e por narrativas que ganham tração na imprensa e no Congresso. Em janelas de alta sensibilidade social ou proximidade eleitoral, a tolerância ao risco por parte do Executivo e do Legislativo cai a zero. A prioridade do poder público passa a ser estritamente o controle de narrativa e a contenção de danos. Quem acompanha apenas a regulação do Ministério da Fazenda é pego de surpresa; quem monitora a pressão popular e o ambiente político percebe a tempestade se formando e se prepara antes que a medida drástica seja assinada.
Você destaca a importância de advogados eleitoralistas e profissionais de relações governamentais para a estratégia do setor. Que sinais políticos ou institucionais deveriam ter sido observados antes da publicação da MP?
O principal sinal ignorado foi o descompasso entre a velocidade técnica do setor e o tempo do calendário político. Deveriam ter sido observados o avanço de frentes parlamentares críticas ao setor, a intensidade do debate público sobre impacto na renda das famílias, discursos em plenário e o acionamento de órgãos de controle. Além disso, a falta de uma presença institucional coordenada do iGaming em Brasília deixou o setor sem alertas precoces. Um time de Relações Governamentais e Risco Político (RIG) teria identificado que o custo político de não intervir no setor havia se tornado alto demais para o Governo, sinalizando a iminência de um movimento de contenção.
Em um ambiente de maior sensibilidade política e proximidade das eleições, como as empresas de apostas podem acompanhar melhor o calendário político e as mudanças na percepção da sociedade?
Mudando a chave da reatividade para a inteligência preventiva. Isso exige incorporar permanentemente na governança das empresas profissionais e consultorias especializadas em Risco Político, Direito Público e Análise Institucional. Acompanhar o calendário político não é olhar a data da eleição, mas entender a dinâmica de votações no Congresso, a sensibilidade dos agentes públicos à opinião pública e as pautas que viram bandeiras eleitorais. É preciso sair da bolha técnica e estruturar um monitoramento contínuo da temperatura social e da produção legislativa, antecipando os cenários em vez de ser atropelado por eles.
Independentemente do desfecho da MP no Congresso e no Judiciário, qual deveria ser a principal modificação de estratégia do setor? O que as empresas precisam fazer para não serem novamente surpreendidas por uma mudança política ou regulatória de grande impacto?
A principal mudança é entender que Relações Governamentais e Gestão de Risco Político (RIG) não são custos administrativos ou um recurso de crise, mas sim investimentos vitais em mitigação de riscos imponderáveis. Assim como nenhuma operadora roda no Brasil sem um time de compliance ou infraestrutura de TI, ela não pode operar sem uma estrutura corporativa dedicada à Inteligência Institucional. Tratar mudanças abruptas como uma fatalidade é um erro estratégico grave. As empresas precisam criar departamentos internos de RIG ou contratar especialização do nicho para mapear o ambiente público, engajar com transparência e garantir a estabilidade do seu capital perante a volatilidade institucional brasileira.







