
Por Tatiana Martins, jornalista da G&M News.
Nos últimos anos, Portugal vem mostrando que tamanho não é o único indicador de relevância no mercado europeu de jogos e apostas. Embora esteja ainda distante dos grandes mercados do continente em volume de receita, como Reino Unido, Itália, Alemanha e França, o país apresenta crescimento consistente, uma estrutura regulatória consolidada e um mercado online que continua atraindo operadores e novos investimentos.
Os dados mais recentes do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (SRIJ) reforçam essa trajetória. No segundo trimestre de 2026, a receita bruta gerada pelos jogos e apostas online em Portugal cresceu 14,4% em relação ao mesmo período de 2025. No primeiro trimestre, o avanço havia sido de 13,7% na comparação anual, quando a atividade gerou €323,7 milhões em receita bruta.
O desempenho coloca Portugal em uma posição diferente daquela ocupada pelos mercados europeus mais maduros. Em vez de competir diretamente com as maiores jurisdições em escala, o país oferece um ambiente no qual ainda existe espaço para expansão, desenvolvimento de produtos e aprofundamento da oferta digital.
Um mercado menor, mas em trajetória de expansão
A comparação com outros mercados europeus deixa clara a diferença de escala. O Reino Unido, maior mercado de jogos online da Europa, movimentou €11,1 bilhões em receita online em 2024, enquanto Itália, Alemanha, França e Espanha também apresentaram volumes significativamente superiores aos portugueses. Ao mesmo tempo, mercados menores podem apresentar oportunidades diferentes justamente porque ainda estão em processo de desenvolvimento e consolidação. Portugal se encaixa nesse segundo grupo.
Os resultados registrados pelo SRIJ nos últimos trimestres mostram que o mercado português continua crescendo mesmo depois de vários anos de operação sob um regime regulado. No quarto trimestre de 2025, por exemplo, a receita bruta do segmento online havia avançado 4,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. No terceiro trimestre, o crescimento anual havia chegado a 11,6%.
A aceleração observada em 2026 torna esse movimento ainda mais relevante. No primeiro trimestre, o mercado registrou €323,7 milhões em receita bruta e €98,1 milhões em Imposto Especial de Jogo Online (IEJO), enquanto o número total de jogadores registrados chegou a 4,9 milhões, alta de 2,5% em relação ao mesmo período de 2025. O número de jogadores com prática de jogo também aumentou 5,7%, para aproximadamente 1,3 milhão.
Esses números indicam que o mercado ainda possui capacidade de ampliar sua base sem depender exclusivamente de aumentos no valor apostado pelos jogadores existentes.
A força do modelo regulado
Um dos principais diferenciais portugueses está na consolidação do modelo de licenciamento. Em setembro de 2026, a relação oficial do SRIJ contabilizava 19 entidades exploradoras licenciadas, incluindo nomes como Betclic, Bwin, PokerStars, Betano, 888, Luckia e novas entradas como Retabet e Vincino.
A chegada de novos operadores em 2026 é particularmente relevante porque demonstra que o mercado continua apresentando atratividade para empresas interessadas em ampliar sua presença na Europa.
Em julho de 2026, o SRIJ anunciou a autorização da Retabet Portugal para explorar apostas desportivas e jogos de máquinas, além da licença concedida à Play Jogo, responsável pela marca Vincino, para explorar jogos de máquinas, blackjack e roleta. O movimento também mostra que Portugal não está simplesmente mantendo uma estrutura regulatória estabelecida. O mercado continua incorporando novos participantes e categorias de produto dentro de um sistema supervisionado.
Para operadores internacionais, esse aspecto pode ser particularmente importante. A existência de um processo formal de licenciamento, certificação e homologação cria maior previsibilidade para empresas que pretendem desenvolver operações de longo prazo.
O online como principal vetor de progresso
O segmento digital é hoje o principal motor de expansão do mercado português. No primeiro trimestre de 2026, os jogos de fortuna ou azar responderam por 63,1% da receita bruta online, enquanto as apostas desportivas à cota representaram 36,9%. O resultado também expressa como o mercado português evoluiu para além de uma dependência exclusiva das apostas esportivas.
Essa diversificação é importante em um cenário europeu no qual os operadores buscam novas fontes de receita e maior valor por usuário. Cassinos online, jogos de máquinas e diferentes formatos de entretenimento digital podem ampliar a participação do segmento online e criar novas oportunidades de aquisição, retenção e cross-selling.
A própria estrutura regulatória portuguesa permite que titulares de licenças para jogos de fortuna ou azar solicitem autorização para explorar novos tipos de jogos, desde que existam regras previamente definidas e que os sistemas sejam certificados e homologados pelo SRIJ. Essa possibilidade oferece ao mercado uma capacidade de adaptação importante à medida que surgem novos formatos e modelos de entretenimento.
Uma posição estratégica na Europa
Outro diferencial está na posição de Portugal no ecossistema europeu. O país opera dentro de uma estrutura regulatória nacional própria, mas participa ativamente da cooperação entre autoridades europeias. Em junho de 2026, o SRIJ assinou uma declaração conjunta com os reguladores de Bélgica, França, Alemanha, Itália, Países Baixos, Polônia, Espanha e Suíça para reforçar a cooperação em proteção dos jogadores, integridade das apostas e combate a plataformas de mercados de previsão que operem fora dos requisitos legais.
Essa cooperação ganha importância diante da transformação do mercado europeu. Segundo a European Gaming and Betting Association (EGBA), seus nove operadores membros registraram €18 bilhões em receita bruta online em 2025, crescimento de 34% em relação ao ano anterior. O número de contas ativas chegou a 43,8 milhões e os operadores passaram a deter 401 licenças em 22 jurisdições europeias.
O dado ajuda a contextualizar a oportunidade portuguesa: o mercado europeu está caminhando para modelos cada vez mais regulados e fragmentados por jurisdição, e operadores precisam desenvolver estratégias específicas para cada país. Nesse cenário, um mercado de menor dimensão pode continuar sendo estratégico quando combina crescimento, estabilidade regulatória e uma base digital suficientemente desenvolvida.
Jogo responsável com grande enfoque
Um aspecto que pode favorecer a evolução do mercado português é a atenção à proteção dos jogadores. Em abril de 2026, o SRIJ lançou um novo formulário de autoexclusão para jogos e apostas online. O mecanismo permite que a exclusão seja aplicada a todos os operadores licenciados em Portugal, criando uma proteção transversal para o jogador, em vez de limitar o procedimento a uma única plataforma.
Os dados do primeiro trimestre também mostram a dimensão dessa ferramenta. Havia aproximadamente 380,5 mil jogadores autoexcluídos, crescimento de 23,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A evolução desses mecanismos acompanha uma tendência mais ampla na Europa. A EGBA destaca que 2025 marcou avanços importantes em padrões de jogo seguro e proteção do consumidor, incluindo a adoção da norma europeia EN 18144, voltada para indicadores de risco comportamental em jogos online.
Para Portugal, essa abordagem pode contribuir para a construção de um mercado mais sustentável no longo prazo, especialmente em uma indústria na qual confiança, proteção do consumidor e transparência regulatória passaram a ser elementos importantes para a reputação das marcas.
O potencial está mais na evolução do que na escala
No curto prazo, Portugal provavelmente não se tornará um concorrente direto dos maiores mercados europeus em volume absoluto. Essa não precisa ser a métrica pela qual o mercado deve ser avaliado.
A oportunidade portuguesa está em outro lugar: crescimento consistente, digitalização, diversificação da oferta, entrada de novos operadores e uma estrutura regulatória que continua evoluindo.
O crescimento de dois dígitos registrado no primeiro e no segundo trimestres de 2026 é especialmente significativo porque acontece em um mercado que já possui vários anos de experiência regulatória. Não se trata, portanto, apenas do efeito inicial da abertura de um setor.
Ao mesmo tempo, a entrada de novas entidades licenciadas demonstra que ainda existe espaço para competição e desenvolvimento de negócios. O mercado português pode oferecer oportunidades para operadores especializados, fornecedores de tecnologia, plataformas de cassino online, empresas de pagamentos, soluções de compliance, CRM e ferramentas de jogo responsável.
Para a indústria europeia, Portugal pode ser visto menos como um mercado de escala e mais como um mercado de crescimento e especialização. A combinação entre uma base de consumidores já familiarizada com o entretenimento digital, crescimento das receitas online, turismo internacional, presença de operadores globais e um regulador integrado ao ambiente europeu cria condições favoráveis para uma nova etapa de desenvolvimento.
Se o ritmo observado em 2026 se mantiver, no futuro, Portugal poderá ampliar sua relevância no mapa europeu não necessariamente pelo tamanho de seu mercado, mas pela capacidade de construir um ecossistema regulado, competitivo e preparado para a próxima fase do setor de jogos e apostas.







