CONSTRUIR AMBIENTE PROFISSIONAL SEM REMUNERAÇÃO
A reportagem do site DUST2 Brasil, intitulada “40% dos times não recebem salário no Brasil”, publicada em 11 outubro de 2026, traz à tona uma questão fundamental para o desenvolvimento dos esportes eletrônicos no país: como construir um ambiente competitivo profissional, íntegro e sustentável quando parte das equipes não oferece remuneração fixa aos atletas? O tema precisa ser analisado para além da gestão financeira das organizações. Trata-se de uma questão que envolve governança, responsabilidade contratual, proteção dos profissionais, sustentabilidade econômica e integridade esportiva.
Segundo o levantamento apresentado pela DUST2, aproximadamente 40% das equipes consideradas na análise não possuem remuneração fixa para seus jogadores. A reportagem também relata a situação da METANOIA Wolves, cujos atletas enfrentavam atrasos salariais havia praticamente três meses. Embora os dados se refiram a uma amostra específica de equipes de Counter-Strike, eles oferecem um ponto de partida importante para discutir os desafios da profissionalização dos esportes eletrônicos brasileiros.
É necessário, entretanto, fazer uma distinção: a ausência de salário fixo não significa, por si só, irregularidade ou falta de integridade. Existem diferentes modelos de organização e remuneração no cenário competitivo. O problema surge quando compromissos assumidos não são cumpridos, as condições contratuais não são transparentes ou os profissionais ficam desprotegidos diante da instabilidade financeira das organizações.
INTEGRIDADE ESPORTIVA COMEÇA ANTES DA PARTIDA
Quando se fala em integridade nos esportes eletrônicos, é comum pensar no combate às trapaças, à manipulação de resultados, às fraudes em apostas e aos conflitos de interesse. Esses temas são fundamentais, mas não esgotam o conceito. A integridade também depende da maneira como as organizações tratam seus atletas, administram seus recursos e cumprem as obrigações assumidas. Não é coerente defender partidas limpas e competições transparentes enquanto questões básicas de responsabilidade contratual permanecem sem respostas adequadas.
A insegurança financeira pode aumentar a vulnerabilidade dos atletas a propostas indevidas, especialmente quando alguém enfrenta dívidas, falta de renda ou incerteza sobre a continuidade da carreira. Isso não significa que jogadores sem salário estejam mais propensos a cometer irregularidades, mas evidencia a importância de políticas preventivas que reduzam situações de vulnerabilidade.
A profissionalização, portanto, não deve ser medida apenas pela participação em grandes torneios, pelo número de patrocinadores ou pela audiência das transmissões. Ela também precisa considerar a existência de contratos claros, o cumprimento dos pagamentos, as condições de trabalho e a capacidade das organizações de manter suas atividades de maneira responsável.
O PAPEL DA LEGISLAÇÃO E DA GOVERNANÇA
A Lei Geral do Esporte, Lei nº 14.597/2023, oferece referências relevantes para o debate sobre relações econômicas, trabalho esportivo e contratos. Sua aplicação específica aos profissionais dos esportes eletrônicos, entretanto, deve considerar as características de cada relação contratual e o enquadramento jurídico pertinente. Nem todo atleta precisa necessariamente ter carteira assinada, pois a natureza do vínculo depende das condições concretas da relação entre as partes. Isso não significa que contratos civis, acordos comerciais ou outras formas de remuneração possam ser utilizados para afastar obrigações legais eventualmente existentes.
Quando uma organização promete pagar determinado valor e não cumpre o compromisso, é necessário verificar o contrato, a natureza da relação e os mecanismos adequados para solucionar o conflito. A falta de remuneração fixa também não elimina a necessidade de transparência sobre premiações, direitos de imagem e demais receitas previstas em contrato. O Marco Legal da Indústria de Jogos Eletrônicos, instituído pela Lei nº 14.852/2024, amplia o espaço para discutir o desenvolvimento econômico do setor.
Embora não resolva automaticamente as questões trabalhistas e contratuais dos atletas, sua implementação pode integrar uma agenda mais ampla de qualificação profissional, governança e sustentabilidade da indústria. Nesse contexto, entidades esportivas, publishers, organizadores de torneios, patrocinadores e representantes dos jogadores precisam assumir responsabilidades compatíveis com sua atuação.
SEIS MEDIDAS PARA TRANSFORMAR O CENÁRIO
A primeira medida é desenvolver um modelo de referência contratual para os esportes eletrônicos brasileiros. O documento deve estabelecer regras claras sobre remuneração, datas de pagamento, premiações, direitos de imagem, rescisão e resolução de conflitos. Sua adoção deve respeitar as particularidades das modalidades e os diferentes modelos jurídicos de contratação. A segunda é criar um programa de certificação de integridade e responsabilidade financeira para organizações. Critérios verificáveis, auditoria independente e transparência permitiriam reconhecer equipes que demonstram boas práticas de governança, cumprimento contratual, proteção dos atletas e prevenção de irregularidades.
A terceira medida é incentivar mecanismos de garantia de pagamento nas competições. Organizadores podem avaliar exigências proporcionais ao porte dos torneios, como comprovação de capacidade financeira, reserva para premiações e procedimentos para tratar atrasos. As regras precisam proteger os atletas sem impor custos desproporcionais às equipes menores. A quarta é fortalecer os mecanismos de resolução de conflitos. Atletas precisam ter acesso a canais seguros para denunciar atrasos, descumprimentos contratuais, assédio e outras irregularidades. Instâncias especializadas podem contribuir para solucionar controvérsias, respeitando a legislação, o direito de defesa e as competências das autoridades responsáveis.
A quinta medida é estimular a diversificação das receitas das organizações. A dependência de um único patrocinador, das premiações ou de um segmento específico do mercado aumenta a exposição às oscilações econômicas. Patrocínios de diferentes setores, produção de conteúdo, eventos, formação profissional e parcerias institucionais podem contribuir para uma estrutura financeira mais resiliente. Por fim, o Brasil precisa avançar na produção de dados sobre trabalho e integridade nos esportes eletrônicos.
Um Observatório Nacional poderia acompanhar remuneração, contratos, atrasos, encerramento de equipes e condições de trabalho. O levantamento da DUST2 pode servir como referência inicial, mas uma investigação nacional precisaria ampliar a cobertura para outras modalidades, adotar metodologia transparente e ouvir atletas, organizações e especialistas.
RESPONSABILIDADES COMPARTILHADAS ENTRE TODOS
Nenhuma dessas soluções será suficiente se a responsabilidade for atribuída exclusivamente aos jogadores ou ao poder público. As organizações precisam planejar suas despesas e cumprir os compromissos assumidos. Os publishers podem avaliar medidas de governança e requisitos proporcionais nas competições sob sua responsabilidade. Organizadores devem oferecer regras transparentes, enquanto patrocinadores podem incorporar critérios de integridade aos seus processos de contratação.
Entidades esportivas e instituições de pesquisa podem contribuir com formação, padrões de conduta e estudos sobre o setor. Ao Governo cabe atuar dentro de suas competências, promovendo segurança jurídica, qualificação profissional, pesquisa e políticas de desenvolvimento econômico. Também é fundamental evitar que os atletas sejam punidos coletivamente por dívidas de suas organizações. Em situações de inadimplência, as medidas adotadas devem considerar as responsabilidades de cada parte e preservar, sempre que possível, a continuidade da carreira dos profissionais envolvidos.
COMPROMISSO COM O FUTURO DOS ESPORTS NO BRASIL
A reportagem da DUST2 não deve ser vista apenas como um retrato de dificuldades financeiras de algumas equipes. Ela oferece uma oportunidade para discutir o modelo de desenvolvimento dos esportes eletrônicos no Brasil e as condições necessárias para sua consolidação como atividade profissional. O país possui uma comunidade expressiva de jogadores, organizações, produtores de conteúdo, desenvolvedores e profissionais que movimentam a indústria de games. Para transformar esse potencial em desenvolvimento sustentável, é necessário construir um ambiente que combine oportunidades econômicas, segurança contratual e integridade competitiva.
A proposta é avançar para uma agenda nacional de integridade nos Esports que reconheça o cumprimento dos compromissos financeiros como parte das boas práticas de governança, sem confundir a ausência de salário fixo com irregularidade automática. Não basta garantir que uma partida seja disputada de acordo com as regras. É preciso assegurar que as pessoas responsáveis por tornar a competição possível sejam tratadas com respeito, transparência e responsabilidade.
A profissionalização dos esportes eletrônicos brasileiros não pode existir apenas na imagem das equipes, nos grandes eventos ou nos números de audiência. Ela precisa estar presente nas relações cotidianas, nos contratos cumpridos e na segurança de quem dedica seu trabalho à construção desse mercado. Sem respeito aos atletas, a profissionalização permanece incompleta. Sem integridade, não há desenvolvimento sustentável para os esportes eletrônicos.








