
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Conte um pouco sobre sua trajetória profissional e o que motivou a criação da empresa. Qual lacuna específica no mercado latino-americano de iGaming você buscava preencher?
Comecei no iGaming como Gerente de Afiliados, e foi ali que desenvolvi habilidades que uso até hoje: entender o comportamento do jogador, construir parcerias e enxergar o que de fato gera valor em uma operação. A partir daí, passei por diferentes posições. Atuei por um período como Diretor Geral e, em seguida, surgiu a oportunidade de cofundar a ApuestaBet e assumir como CEO. A empresa nasce para preencher lacunas que eu enxergava com clareza, principalmente nos países vizinhos ao Brasil. Hoje, operamos em mercados da América do Sul, onde a atividade é autorizada ou reconhecida pelo Governo. Trabalhar em mercados regulados ou que estão estruturando o setor é o caminho que buscamos seguir e manter. Faltava nessa região uma experiência de usuário realmente cuidadosa: uma plataforma otimizada, saques ágeis, comunicação próxima e transparente com o jogador e um ambiente que transmita profissionalismo. Fugimos daquela poluição visual clássica que tomou conta de muitos cassinos online. A nossa proposta é que o usuário viva o seu momento de lazer de forma natural, sem excessos e sem ser bombardeado a todo momento por confusão visual.
Qual sua análise sobre a proibição das apostas de quota fixa e cassinos online determinada pelo Governo brasileiro e os efeitos que poderia citar nesse sentido?
A minha análise reflete aquilo que o mercado inteiro já percebeu: a MP é, antes de tudo, uma decisão política. Uma medida desse porte, que afeta milhares de empregos, fornecedores de serviços que estavam trazendo investimento para o Brasil e milhões de usuários que estavam protegidos pelo mercado regulado, não deveria ser tomada por canetada a poucos dias do primeiro turno de uma eleição presidencial, sem debate com o setor e com a sociedade. O efeito prático é preocupante para mim e para outros players do setor. O mercado não parou; quem parou foram as marcas reguladas. Hoje, qualquer pessoa acessa um site ilegal, faz um Pix e começa a jogar, sem verificação de identidade, sem segurança e sem nenhuma ferramenta de jogo responsável. Na prática, a MP não proibiu as apostas; proibiu o mercado regulado. Era justamente o mercado regulado que protegia os mais vulneráveis. Uma pessoa que tinha solicitado autoexclusão na plataforma do Governo não conseguia jogar em uma casa autorizada, assim como beneficiários de programas sociais. As operadoras também tinham abandonado práticas apelativas, como o bônus de depósito e outros. Agora, com as portas abertas para as chamadas casas “black”, essas mesmas pessoas conseguem criar uma conta, depositar e jogar sem qualquer barreira. Já há operações ilegais que surgiram depois da MP e acumulam milhões em depósitos em poucos dias. Na minha opinião, precisamos intensificar a proteção aos vulneráveis, mas o caminho é o mercado regulado com fiscalização rigorosa, e não a proibição. Também precisamos construir no Brasil a cultura que os países mais desenvolvidos já têm há anos: a de que apostar é uma atividade de lazer, a ser feita com responsabilidade.
Como sua empresa se posicionou diante da MP?
Antes da MP, o nosso foco era totalmente o Brasil. Operamos de forma regulada e concentramos aqui os nossos investimentos, a nossa equipe e os nossos recursos. Com a MP, cumprimos a decisão e redirecionamos a estratégia: mantivemos o time e passamos a concentrar os esforços na América Latina. Já operamos em países vizinhos com mercado regulado e também em países que reconhecem a atividade e recolhem impostos sobre ela, mas que ainda estão construindo uma regulamentação própria. Hoje, não sabemos se vamos voltar ao Brasil, mesmo que a MP caia. A insegurança jurídica que enfrentamos aqui é enorme. Independentemente do resultado das eleições, ninguém sabe como o mercado vai ficar: se a proibição será mantida de forma integral, se haverá uma flexibilização parcial, se o valor pago pela outorga será devolvido. É um cenário de incerteza total, e nenhuma empresa consegue planejar investimentos assim. Enquanto isso, seguimos otimistas, com bom desempenho na América do Sul e já estudando a entrada no mercado europeu.
Qual sua visão sobre o futuro das apostas online no Brasil?
O Brasil é um excelente país para o iGaming. Apostar sempre fez parte da nossa cultura: bingo, Tele Sena, Baú da Felicidade, Mega-Sena, Lotofácil e tantos outros formatos que existiam e continuam existindo. O que as bets fizeram foi facilitar o acesso do brasileiro a uma atividade que ele já conhecia. O mercado regulado veio justamente para trazer regras, segurança e proteção, especialmente para quem tem algum tipo de compulsão. Com a MP, a única certeza é que as apostas vão continuar movimentando bilhões de reais, só que agora no mercado ilegal. Não é uma suposição, é o que a história mostra. O próprio Brasil já mostrava isso: mesmo com o mercado regulado em funcionamento, o mercado ilegal representava cerca de 30% do volume total de apostas, o que significava mais de R$ 10 bilhões por ano em impostos que deixavam de chegar aos cofres públicos. Isso sem contar o risco a que o usuário se expõe nesses sites. Proibir não elimina as apostas; apenas entrega o mercado inteiro para quem não paga imposto e não protege ninguém. Por isso, sigo acreditando no Brasil para o setor de iGaming. A demanda existe, a cultura existe e o país já provou que é capaz de construir um mercado regulado sério, com regras de proteção ao jogador que eram referência na região. Mas precisamos bater forte em uma questão: apostar é lazer, é hobby, e não pode ser vendido de outra forma, seja por influenciadores, afiliados ou qualquer outro canal de divulgação. Apostar não é fonte de renda nem solução financeira, e o próprio setor tem a responsabilidade de deixar isso claro. Mais cedo ou mais tarde, o debate vai ter que voltar, de forma técnica e não eleitoral. Quando isso acontecer, espero que o caminho escolhido seja o da regulamentação com fiscalização forte, tributação justa e jogo responsável, porque é esse o modelo que protege as pessoas, gera arrecadação e tira o espaço do mercado ilegal. O futuro das apostas no Brasil não é a proibição; é a regulação feita do jeito certo.







