
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Qual foi o principal catalisador para fundar a Rede Lusófona de Pesquisadores em Esportes Eletrônicos, e como tem sido a cooperação entre os diferentes países de língua portuguesa?
Na verdade, a história é bastante engraçada. Numa conversa de LinkedIn, comentava com o Carlos Gama que a comunidade lusófona estava desintegrada em termos de pesquisa. Precisávamos de um órgão unificador. No dia seguinte ou dois dias depois, ele manda-me o website já feito e pergunta: é isto? Então o principal catalisador tem um nome próprio: Carlos Gama. Para além do início, ele tem tido um papel muito importante na contínua publicação de novas versões científicas da revista. Bem como na escolha dos editores e revisores, que aproveito para agradecer todo o trabalho que têm ao tornarem possível este projeto. No que concerne à cooperação entre países, diria que há dois que se destacam: Portugal e Brasil. Por várias razões: o Carlos sendo brasileiro arrasta muita gente do cenário brasileiro e eu, sendo português, acabo por trazer algumas pessoas do cenário dos Esports em Portugal. Depois, há a questão do desenvolvimento dos Esports nos diferentes países lusófonos: Portugal e Brasil estão à frente de outros países lusófonos. Ainda no mês passado, o Porto recebeu a Blast depois de já a ter recebido em Lisboa dois vezes. O Brasil também já recebeu várias competições internacionais. Para além de tudo isso, tanto Portugal como o Brasil já tiveram o privilégio de serem campeões do mundo em diversas modalidades, algo que traz prestígio a cada país.
Você teve a oportunidade de levar o debate sobre os Esports ao Parlamento português. Qual foi a receptividade dos decisores políticos e que passos práticos se delinearam ao nível legislativo?
Fomos recebidos na Assembleia da República pelo maior partido da oposição, o Partido Socialista. Curiosamente, no próprio dia, a Iniciativa Liberal lançou o primeiro Projeto de Lei sobre os Esports, que tem andado em correções e atualizações à medida que o tempo avança. Na verdade, outros partidos acabaram por tomar interesse. A comunidade de Esports em Portugal já reuniu com todos os partidos com assento parlamentar; uns com maior interesse que outros nos Esports, uns com maior vontade política em fazer dos Esports uma bandeira que outros, mas, o pé na porta está lá. Pessoalmente, penso que o reconhecimento estará a médio prazo. É algo que muito nos orgulha e é o resultado do trabalho de muitos anónimos que também dedicam horas sem fim a uma causa que não lhes traz retorno financeiro. Quando chegar, pecará por ser tardia, mas quem o fizer poderá ter a certeza de que ficará na história pôr o ter feito. Estamos a falar de uns dos maiores fenómenos no mundo e os partidos que tiverem a coragem de inovar irão beneficiar desse estatuto a curto e longo prazo. Obviamente que tudo o que envolve política será sempre um peso entre aquilo que é a vontade do povo. Ainda existe alguma desinformação em relação aos Esports na população em geral, principalmente dentro das gerações mais velhas. A melhor forma de trabalhar isso é com duas vertentes: (1) a questão científica, da qual tenho tido a sorte de trabalhar com profissionais fantásticos e alunos tanto de Mestrado como Doutoramento, que me têm ajudado a dar passos muito sólidos nesse sentido; (2) o conhecimento de como funciona efetivamente uma equipa de Esports. Percebendo que não se trata apenas de um jovem, atuando só atrás de um monitor, a questão ficará bastante mais clara. Mais do que isso, temos que rapidamente endereçar esta questão devido a dois grandes fatores: (1) a proteção do jovem jogador de contratos que lhe trazem mais malefícios que benefícios; (2) apostas desportivas. Elas continuarão a existir e, sem regulamentação, é dinheiro que continuará a fugir aos cofres do Estado e, já agora, ao ecossistema português que, com esse dinheiro, poderia construir bases de sucesso para armar os novos craques do futuro.
Como é que os Esports podem deixar de ser vistos apenas como entretenimento jovem para se tornarem ferramentas de inclusão social, sendo que atualmente existem no setor equipas de apoio multidisciplinares como analistas, psicólogos e personal trainers?
A Betclic Apogee Esports, corria o ano de 2020 ou 2021 penso, e tinha uma personal trainer a tempo inteiro e também tinha psicólogo. Eu penso que essa mudança vem precisamente através da educação, das pessoas perceberem que os filhos são capazes de desenvolverem ferramentas que lhes vão ser úteis no mercado de trabalho futuro. Vem de termos o Vice-presidente da Assembleia da República a defender a regulamentação dos Esports, como tivemos ainda este mês. A desconfiança existe sempre e sabemos que o ser humano é resistente à mudança, mas com o trabalho certo junto da educação, vamos conseguir. Temos exemplos incríveis de Câmaras Municipais como a de Valongo que providencia um espaço seguro com PlayStations e computadores para os jovens do Concelho poderem jogar videojogos. Sabem que mais? Acompanhados por psicólogos e ainda têm treino dado por treinadores de equipas de Esports em Portugal. Também têm masterclasses onde pessoas de diferentes áreas falam com as crianças. Assim se cria uma cultura positiva e de educação à volta dos Esports, algo onde eu acredito piamente. Aliás, nos últimos anos, tenho viajado um pouco por todo o país para falar em conferências em universidades sobre Esports. Quem foi o agente de mudança aqui? Os alunos. Os alunos falaram sobre este assunto ao Professor da disciplina que acabou por ceder à “vontade popular” e a mudança aconteceu. Diria que estamos no caminho certo, mas com passos para dar.
Com relação ao nível de profissionalização do segmento em Portugal, em comparação com o resto da Europa, qual é a situação e qual o futuro que podemos vislumbrar no Esports em geral?
Em relação ao nível de profissionalização em Portugal, enquanto não existir reconhecimento, será muito difícil o ecossistema crescer para além de um número menor aos dedos de uma mão onde os profissionais vivem dos Esports. Mas é uma questão económica: somos um país de 10 milhões de pessoas. São Paulo ou o Rio de Janeiro competiriam com Portugal. Temos o privilégio de estar na Europa e, por isso, poder competir contra os melhores que, na generalidade, ainda estão na Europa. Temos o exemplo à cabeça SAW e Betclic Apogee Esports como líderes do pelotão, mas poucas mais se aproximam, infelizmente. Apesar de o nível de profissionalismo ter vindo a crescer, e digo isto com bastante satisfação. Em relação ao futuro dos Esports em geral, continuo a ver como positivo. O Esports Winter obrigou organizações a repensar e patrocinadores a arrefecerem os ânimos, mas trouxe profissionalismo que até então não existia em algumas organizações pois o enfoque tornou-se mais preciso. Estão aqui para ficar e recomendam-se!







