
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Você é reconhecido internacionalmente e detém uma carreira que atravessa mais de duas décadas de experiência no mercado, se destacando pela capacidade de identificar oportunidades e inovar dentro do setor de iGaming e organizar eventos no segmento de alcance mundial. Poderia traçar uma retrospectiva dos primórdios do iGaming até os dias de hoje no Brasil, inserido agora em um cenário regulamentado?
Duas décadas, ou talvez um pouco mais, se passaram, mas ainda lembro de cada tombo e de cada vez que precisei me levantar ao longo da minha jornada no iGaming. Foram muito mais dificuldades do que todos imaginam, embora elas nem sempre apareçam quando se olha apenas para os resultados. Quando tudo ainda era mato, como costumamos dizer no Brasil, o mercado era praticamente uma terra sem regras. Muitas empresas atuavam aqui de forma bastante diferente daquela adotada em mercados já regulamentados. Poucas buscavam seguir as boas práticas que já existiam no exterior. Felizmente, tive ao meu lado grandes amigos, parceiros e sócios que compartilhavam da mesma visão: mais cedo ou mais tarde o Brasil teria uma regulamentação capaz de proteger consumidores, empresários e o próprio Estado. Ao longo dessa trajetória, vimos diversas ondas que impactaram profundamente o mercado. Uma das mais marcantes ocorreu no final de 2014 e início de 2015, quando operadores considerados sólidos reduziram comissões unilateralmente, encerraram programas de afiliação e causaram enormes prejuízos para milhares de afiliados. Historicamente, o afiliado sempre esteve na ponta mais vulnerável da cadeia e, por isso, sofria diretamente com oscilações cambiais, mudanças em meios de pagamento, restrições de fornecedores e alterações repentinas das regras impostas pelos operadores. Hoje, vivemos uma realidade completamente diferente. O mercado conta com leis, portarias e regras claras que estabelecem responsabilidades para todos os participantes. Era exatamente isso que precisávamos para construir uma indústria saudável, sustentável e preparada para crescer no longo prazo. Ainda existem desafios e debates importantes sobre a regulamentação, mas o saldo é extremamente positivo, sobretudo para os consumidores, que finalmente passaram a contar com mecanismos de proteção que simplesmente não existiam há alguns anos.
Dentre os vários prêmios já recebidos por você, agora se soma mais uma conquista com a importante distinção do “Affiliate Idol 2026”, consolidando seu legado que transformou de maneira pioneira o iGaming na América Latina. Como você se sente em relação a esse reconhecimento?
Receber o ‘Affiliate Idol’ foi uma enorme surpresa. Jamais imaginei que meu trabalho desenvolvido no Brasil pudesse ser reconhecido dessa forma internacionalmente. Quando comecei, o Brasil sequer era visto como um mercado promissor. Lembro de participar da antiga London Affiliate Conference, organizada pelo meu amigo Alex Pratt, e de precisar convencer operadores internacionais de que valia a pena olhar para o Brasil e para a América Latina. Muitas vezes era difícil até conseguir uma reunião. Por isso, receber hoje o mesmo reconhecimento concedido a nomes que sempre admirei, como Ory Weihs, da XLMedia, e Jesper Søgaard e Christian Kirk Rasmussen, da Better Collective, é uma honra imensa. Mais do que um prêmio pessoal, vejo esse reconhecimento como uma homenagem a toda uma geração de empreendedores que acreditou no potencial do mercado latino-americano quando quase ninguém acreditava.
O que realmente falta para que o setor de jogos no Brasil assuma um papel de protagonismo definitivo no mercado global?
Na minha opinião, o Brasil já está vivendo essa transição. Talvez ela não seja percebida por quem chegou recentemente ao setor, mas quem acompanhou o mercado desde o início consegue enxergar o quanto evoluímos. É claro que ainda existem desafios. Precisamos de estabilidade regulatória, segurança jurídica e de um ambiente em que o setor seja tratado de forma equilibrada, sem restrições desproporcionais em relação a outras indústrias de entretenimento. Mas, olhando o cenário como um todo, nunca estivemos tão bem posicionados. Lembro que, anos atrás, quando a Super Afiliados ultrapassava a marca de mil jogadores indicados em um único mês, era motivo de comemoração. Não era algo comum. Havia outros grandes afiliados conquistando bons resultados, mas tudo era muito mais difícil. Hoje, vemos empresas movimentando dezenas de milhares de novos jogadores mensalmente. Isso demonstra o quanto o mercado amadureceu. Sob a perspectiva de volume de negócios, tecnologia, profissionalização e regulamentação, o Brasil vive um dos momentos mais importantes da sua história no iGaming e reúne todas as condições para assumir um papel permanente entre os maiores mercados do mundo.
Você possui a capacidade de detectar e antecipar tendências. Qual seria o futuro provável do mercado iGaming no Brasil?
Se eu tivesse a capacidade de prever o futuro, provavelmente seria um empresário muito melhor do que sou. O que posso fazer é analisar tendências e comparar a evolução do Brasil com mercados que acompanhei de perto, como Reino Unido e Malta. Nenhum mercado é idêntico ao outro. O Brasil possui características culturais, econômicas e regulatórias muito próprias, o que torna qualquer previsão apenas um exercício baseado em probabilidades. Acredito que ainda veremos uma evolução importante da regulamentação. Algumas regras deverão ser aperfeiçoadas, outras certamente surgirão. Isso faz parte do amadurecimento natural de qualquer mercado regulado. Também entendo que veremos uma consolidação do setor. A carga tributária elevada, o aumento dos custos de conformidade e as exigências regulatórias tendem a favorecer empresas mais estruturadas. Por isso, considero inevitável que os próximos anos sejam marcados por fusões, aquisições e uma maior concentração do mercado. Ao mesmo tempo, enxergo enormes oportunidades para empresas inovadoras. Sempre que um mercado amadurece, surgem novos modelos de negócios, tecnologias e formas de atender o consumidor. Por isso, continuo bastante otimista em relação ao futuro do iGaming brasileiro.
A G&M News vai realizar em agosto a terceira edição do G&M Eventos Brasil 2026 em São Paulo, onde reunirá líderes do setor de jogos brasileiro, palestrantes e especialistas. Diante desta sua experiência e visão de negócios, qual a importância de encontros como estes inseridos em um cenário onde a dinâmica e os debates da regulamentação estão em todos os meios?
Posso afirmar com bastante convicção que todos os eventos sérios realizados hoje no Brasil e na América Latina, independentemente do seu porte, desempenham um papel extremamente importante para o desenvolvimento da indústria. São nesses ambientes que operadores, afiliados, fornecedores, reguladores, parlamentares e especialistas conseguem dialogar, trocar experiências e construir soluções para os desafios comuns. Quanto maior o diálogo, maior tende a ser a qualidade das decisões tomadas pelo setor. Eventos como os promovidos pela G&M News, assim como tantas outras iniciativas relevantes do mercado, contribuem diretamente para a profissionalização da indústria e para a construção de um ambiente de negócios cada vez mais sólido e transparente. No caso do BiS SiGMA, sempre acreditamos que nossa missão ia muito além de organizar uma feira de negócios. O objetivo sempre foi conectar pessoas, aproximar mercados e criar um espaço onde decisões importantes pudessem nascer das conversas entre os diferentes agentes do setor. Esse mesmo propósito continua presente também nos eventos regionais que realizamos e apoiamos pelo Brasil. Tenho a felicidade de compartilhar essa visão com grandes parceiros e amigos, como Eman Pulis, Carlos Cardama, Yudi Osugui e Flavio Figueiredo. Todos acreditamos que o diálogo, a cooperação e a construção coletiva são o caminho mais eficiente para fortalecer a indústria. Quando trabalhamos juntos, conseguimos entregar muito mais valor ao mercado do que quando cada um atua de forma isolada.








