ENTRETENIMENTO E POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO
Há uma diferença fundamental entre enxergar os esportes eletrônicos como entretenimento e reconhecê-los como uma política de desenvolvimento. A França já fez essa escolha. O Brasil ainda está decidindo. O anúncio do investimento de aproximadamente 250 milhões de euros para fortalecer o ecossistema francês de esportes eletrônicos não representa apenas um incentivo a uma indústria em expansão. Trata-se de uma decisão estratégica de política econômica. Ao investir no setor, o Governo Francês fortalece sua economia digital, amplia a produção tecnológica, estimula a inovação, cria empregos qualificados e consolida um ambiente favorável para empresas, universidades, organizadores de eventos e profissionais especializados.
VITRINE E O ECOSSISTEMA NAS COMPETIÇÕES
Os grandes campeonatos realizados em cidades como Paris e Lyon ilustram apenas a face mais visível desse movimento. Por trás dos palcos, existe uma cadeia econômica complexa, formada por empresas de tecnologia, desenvolvedores de software, produtoras de conteúdo, agências de marketing, hotéis, restaurantes, serviços de segurança, turismo de negócios e inúmeras profissões que pouco têm relação direta com o ato de competir. A competição é apenas a vitrine. O verdadeiro investimento está no ecossistema.
O Brasil começa, ainda que de forma tímida, a construir uma estrutura semelhante. A regulamentação das apostas esportivas de quota fixa, estabelecida pela Lei nº 14.790/2023, criou uma fonte permanente de recursos para o financiamento das políticas públicas do esporte. Ao mesmo tempo, a criação da Diretoria de e-Sport no Ministério do Esporte sinaliza que o Governo Federal compreende que os esportes eletrônicos passaram a ocupar um espaço definitivo na economia do esporte e na transformação digital.
PROPRIEDADE INTELECTUAL E SEGURANÇA JURÍDICA
Mais recentemente, a regulamentação avançou ao reconhecer oficialmente as competições de esportes eletrônicos como aptas a integrar o sistema das apostas esportivas, desde que autorizadas pelos titulares dos direitos de propriedade intelectual dos jogos. Além de oferecer segurança jurídica ao mercado, essa decisão reconhece uma característica própria dos Esports: sua organização depende diretamente da relação entre o esporte, a tecnologia e a propriedade intelectual.
Esses avanços regulatórios, entretanto, levantam uma questão que ainda permanece sem resposta. Se as apostas esportivas passaram a gerar receitas permanentes para o financiamento do esporte brasileiro, qual parcela desses recursos será destinada ao desenvolvimento dos esportes eletrônicos?
MOVIMENTAÇÃO DE BILHÕES SEM POLÍTICAS PÚBLICAS
Essa discussão precisa começar agora. Os esportes eletrônicos já movimentam bilhões de reais, empregam milhares de profissionais e atraem milhões de brasileiros como atletas, espectadores e consumidores. Apesar disso, continuam praticamente ausentes das principais políticas públicas de fomento esportivo.
Não se trata de reivindicar privilégios. Trata-se de reconhecer que um setor com crescente relevância econômica e social precisa ser contemplado pelos instrumentos de financiamento público que o próprio Estado criou.
Na minha avaliação, seria razoável estabelecer que entre 5% e 10% dos recursos arrecadados pelo Ministério do Esporte provenientes das apostas esportivas fossem destinados a um Fundo Nacional de Desenvolvimento dos Esportes Eletrônicos. Não se trata apenas de definir um percentual, mas de assegurar previsibilidade para políticas públicas de longo prazo, capazes de sobreviver às mudanças de Governo e às oscilações orçamentárias.
PARA ONDE VAI O DINHEIRO?
O destino desses recursos também merece reflexão. Historicamente, grande parte dos investimentos em esportes eletrônicos concentrou-se na realização de torneios. Embora importantes para a visibilidade da modalidade, campeonatos isolados raramente deixam um legado permanente. Quando termina a competição, boa parte dos impactos desaparece com ela.
O desenvolvimento sustentável exige outro tipo de investimento. Programas de formação de atletas, qualificação de treinadores, capacitação de árbitros, apoio à pesquisa científica, criação de laboratórios em universidades, incentivo à inovação tecnológica, fortalecimento da integridade esportiva, inclusão feminina, projetos sociais e centros públicos de treinamento produzem resultados muito mais duradouros do que eventos pontuais.
EVASÃO DE TALENTOS E TRABALHO EM TEMPO INTEGRAL
Essa lógica já foi comprovada em outras modalidades esportivas. O ‘Programa Bolsa Atleta’ do Ministério dos Esportes talvez seja o melhor exemplo. Ao oferecer apoio financeiro continuado, o programa permitiu que milhares de esportistas brasileiros permanecessem treinando em alto rendimento. Adaptado aos esportes eletrônicos, poderia reduzir significativamente a evasão de talentos, hoje obrigados a abandonar a carreira pela dificuldade de conciliar treinamento competitivo com a necessidade de trabalhar em tempo integral.
Mas limitar o debate aos atletas seria um erro. Os esportes eletrônicos dependem de uma cadeia profissional extremamente diversificada. Gestores, árbitros, analistas de desempenho, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, desenvolvedores de software, especialistas em cibersegurança, profissionais de integridade esportiva, narradores, comentaristas e pesquisadores são igualmente essenciais para o crescimento do setor.
OS DESAFIOS SEM DADOS CONSISTENTES
Outro investimento estratégico seria a realização de um Censo Nacional dos Esportes Eletrônicos. O Brasil ainda formula políticas públicas baseadas em estimativas fragmentadas. Não sabemos exatamente quantos atletas existem, quantas organizações atuam no setor, quantos empregos são gerados ou qual é o impacto econômico real dessa indústria. Sem dados consistentes, qualquer planejamento permanece limitado.
A experiência francesa demonstra que competitividade nasce do conhecimento. Antes de investir, é preciso compreender o tamanho, as necessidades e as potencialidades do setor. O Brasil vive um momento decisivo. Pela primeira vez, existe um ambiente regulatório que permite transformar parte da riqueza produzida pelas apostas esportivas em investimentos estruturantes para os esportes eletrônicos. A oportunidade dificilmente se repetirá com a mesma intensidade.
O desafio agora não é jurídico nem tecnológico, mais político. Será preciso decidir se os recursos provenientes das apostas continuarão financiando apenas o presente do esporte brasileiro ou se também ajudarão a construir o futuro de uma das indústrias mais dinâmicas da economia digital. A França já respondeu a essa pergunta. Cabe ao Brasil decidir se pretende apenas acompanhar esse movimento ou liderá-lo na América Latina.








