
Por Tatiana Martins, jornalista na G&M News.
A empresa chega ao mercado português com a proposta de ser “ambiciosa sem se levar demasiado a sério”, combinando uma abordagem orientada ao produto com uma cultura de jogo responsável. Como nasceu o projeto e quais foram as principais lacunas ou oportunidades que você identificou no mercado para decidir lançar um novo operador?
Passei muitos anos a trabalhar na indústria do iGaming, muito próximo de operadores, fornecedores e das pessoas que constroem os produtos que usamos todos os dias. Ao longo do tempo, uma coisa foi-se tornando cada vez mais evidente: apesar de termos hoje melhor tecnologia, mais jogos e muito mais dados, muitas marcas de casino começaram a parecer-se demasiado umas com as outras. A Jogatta nasceu precisamente da ideia de que ainda há espaço para construir algo diferente, mais intencional. Usamos a expressão ‘Curated Entertainment’ porque não acreditamos que a resposta seja simplesmente colocar milhares de jogos à frente do jogador e esperar que ele encontre aquilo de que gosta. Queremos fazer escolhas: o que destacamos, como apresentamos o conteúdo, como comunicamos e como toda a experiência se articula. Portugal já é um mercado regulado competitivo e relativamente maduro, por isso não estamos a entrar com a ideia de que existe uma enorme lacuna à espera de ser preenchida. A oportunidade está, sobretudo, em executar melhor: ter um produto mais cuidado, uma marca distinta, relevância local e uma relação mais saudável e sustentável com o jogador. Culturalmente, queremos construir uma empresa séria sem nos tornarmos demasiado sérios. As duas coisas não são incompatíveis.
A empresa está atualmente concentrada em licenciamento, tecnologia, parcerias, equipe e desenvolvimento de produto. Quais são hoje as prioridades para colocar a Jogatta em operação e quais desafios são mais complexos na construção de um novo operador em um mercado regulado como Portugal?
Nesta fase, tudo tem de acontecer na sequência certa. O licenciamento e a conformidade regulatória estão naturalmente no centro de tudo. Uma das coisas mais interessantes em construir um operador de raiz é perceber o quão interligado está tudo. Uma decisão aparentemente pequena ao nível do produto pode ter implicações regulatórias, técnicas, operacionais e financeiras. Portugal também não é um mercado onde se possa simplesmente pegar num produto que funciona noutro país, traduzi-lo e lançar. Existem requisitos regulatórios e técnicos bastante específicos, o que acrescenta complexidade e tempo ao processo. Por isso, a nossa prioridade não é chegar ao mercado o mais depressa possível. É construir bem as fundações, mantendo ao mesmo tempo uma estrutura tão eficiente e leve quanto possível. Prefiro tomar dez boas decisões agora do que passar o primeiro ano depois do lançamento a corrigir cinquenta decisões erradas.
Portugal tem apresentado um desempenho consistente no iGaming e nas apostas esportivas, com receita bruta de €328,2 milhões no segundo trimestre de 2026. Como você avalia o atual estágio de maturidade do mercado português e onde ainda existem oportunidades para um novo operador competir com marcas já estabelecidas?
Portugal é hoje, sem dúvida, um mercado regulado mais maduro. Mas, na minha opinião, maturidade não significa estagnação. De fato, como você mencionou, no segundo trimestre de 2026, o mercado gerou €328,2 milhões de receita bruta, mais 14,4% do que no mesmo período do ano anterior. Os jogos de casino representaram cerca de 62% desse valor e as apostas desportivas 38%. Há outro dado que considero particularmente interessante: entre os jogadores com atividade no trimestre, 43,1% utilizaram tanto casino como apostas desportivas. Ou seja, para uma parte muito significativa dos jogadores, estas duas categorias já fazem parte da mesma experiência de entretenimento. Isto mostra que o mercado continua a evoluir e que ainda existe espaço para fazer as coisas de forma diferente. Mas a oportunidade para um novo operador não está em assumir que as marcas existentes fizeram alguma coisa mal, no entanto, devemos reconhecer que os operadores estabelecidos têm enormes vantagens em notoriedade, dados, CRM, aquisição e experiência operacional. Por isso, temos de conquistar a nossa própria relevância. Na Jogatta, isso significa competir através do produto, da curadoria, da experiência do cliente e da marca, em vez de tentar simplesmente ser quem faz mais barulho ou oferece mais uma promoção. Não acredito que o mercado precise apenas de mais um operador. Precisa de operadores que tenham uma razão clara para existir.
Você destaca o conceito de “responsible play by design” como um dos pilares da companhia. Como essa filosofia será traduzida concretamente no produto, na experiência do usuário e nas estratégias de marketing e retenção da empresa?
Para nós, o jogo responsável não pode ser apenas uma página de compliance escondida no fundo do site. Tem de influenciar a forma como o próprio produto é concebido. Quando falamos em “responsible play by design”, falamos de integrar essa preocupação desde o início: nos percursos do jogador, nas comunicações, na lógica de CRM, nas promoções e na forma como a informação é apresentada. Também significa aceitar que uma boa estratégia de retenção não consiste necessariamente em maximizar cada minuto de utilização ou cada euro de jogo. Uma relação sustentável com um cliente tem muito mais valor do que uma otimização de curto prazo que, no limite, pode destruir a confiança. Queremos que ferramentas como limites, controlos do jogador e informação sobre jogo responsável sejam simples de compreender e fáceis de encontrar. Além disso, procuramos utilizar os dados comportamentais para identificar padrões potencialmente problemáticos e agir quando for necessário. O marketing tem igualmente um papel importante. Existe uma diferença entre tornar o entretenimento apelativo e incentivar comportamentos que deixam de ser saudáveis. Para nós, é fundamental perceber essa diferença. Acredito que jogo responsável e bom design de produto não têm de estar em lados opostos. Pelo contrário, devem reforçar-se mutuamente.
O que significa para você assumir o desafio de construir um operador desde os primeiros estágios? Que características acredita que serão determinantes para a Jogatta se consolidar no mercado português nos próximos anos?
É provavelmente a parte de que mais gosto: começar com uma folha em branco. Passei grande parte da minha vida profissional no iGaming, sobretudo do lado dos fornecedores, mas o meu interesse e formação em arquitetura (sim, arquitetura de edifícios) também influencia bastante a forma como penso neste projeto. Em arquitetura, antes de se pensar na fachada, é preciso perceber o contexto, a função, os fluxos, a estrutura e a experiência de quem vai usar o espaço. Construir um operador tem muito disto. Neste momento, estamos a tomar decisões que, vistas de fora, podem parecer pequena, um processo, um fornecedor, uma decisão de UX, uma contratação, no entanto, são essas decisões de base que vão acabar por definir a empresa e os produtos que iremos lançar. Acredito que há três coisas particularmente importantes para termos sucesso: disciplina, diferenciação e pessoas. Disciplina porque estamos num negócio altamente regulado e competitivo, onde o capital e o tempo têm de ser utilizados de forma inteligente. Diferenciação porque há (muito) pouco valor em sermos apenas mais um operador com um produto indistinguível dos restantes. Pessoas porque, no final, a tecnologia pode ser comprada, os jogos podem ser integrados e os canais de marketing estão disponíveis para todos. Cultura, bom senso e capacidade de tomar decisões são muito mais difíceis de replicar. Tal como na arquitetura, um bom produto não se distingue apenas pela aparência. Distingue-se pela forma como tudo funciona em conjunto. Se daqui a alguns anos alguém conseguir olhar para um dos nossos produtos e reconhecer uma identidade própria, uma forma de comunicar e uma experiência consistentes, ao ponto de dizer “isto parece ser um produto da Jogatta”, acho que teremos conseguido construir algo verdadeiramente relevante.







