
Por Tatiana Martins, jornalista na G&M News.
Quais são as decisões invisíveis que uma área de Compliance toma diariamente e que fazem diferença para a sustentabilidade de uma operação de apostas?
A maior parte do trabalho de Compliance não aparece para o apostador, nem para o mercado. Por exemplo, quando verificamos uma possível fraude ou anomalia a respeito de integridade esportiva, a decisão será de suspender o saque por algumas horas para checar um padrão atípico, mesmo sabendo que isso gera atrito com o cliente; quando revisamos uma peça publicitária antes de ir ao ar, ou recusamos uma mecânica promocional comercialmente atraente. É manter, todos os dias, o equilíbrio entre viabilizar o negócio e não expor a operação e o nosso cliente, o apostador. É exatamente essa atuação que sustenta a operação no longo prazo.
Em um mercado que evolui rapidamente, existe o risco de enxergar a regulamentação apenas como uma lista de obrigações. Como transformar esse cenário em uma cultura em que ética, prevenção e integridade façam parte das decisões de negócio, e não apenas dos processos?
A solução é incluir o Compliance na mesa de decisão desde o início, não como última etapa de validação. Quando o Compliance participa do processo desde a ideia, ele ajuda a construir a alternativa que já nasce em conformidade. Outro ponto importante é mostrar que a vedação à determinada prática não é burocracia, e sim uma prevenção contra o dano reputacional e a construção de uma relação de confiança com o cliente. Cultura de integridade se constrói com exemplo: a partir do momento em que a Diretoria trata a decisão do Compliance como decisão final, os demais farão o mesmo.
A tecnologia tem ampliado a capacidade de monitorar operações, identificar padrões e antecipar riscos. Até que ponto a automação pode fortalecer os programas de Compliance e onde a análise humana continua sendo indispensável?
A automação é insubstituível na escala: monitoramento de milhões de transações, cruzamento de bases de dados, sinalização de padrões atípicos de apostas ou de movimentação financeira em tempo real. Mas o alerta gerado pelo sistema é um ponto de partida, não uma conclusão. A leitura do contexto ainda depende de julgamento humano, principalmente porque decisões como bloqueio de conta ou comunicação de indícios de manipulação de resultados têm consequências sérias para o cliente. A tecnologia amplia a capacidade de enxergar; a decisão do que fazer com o que foi visto continua sendo humana.
O Brasil está construindo sua identidade regulatória no setor de apostas. Na sua opinião, quais boas práticas internacionais fazem sentido para a realidade brasileira e quais soluções precisarão ser desenvolvidas especificamente para atender às características do nosso mercado?
Boa parte da metodologia de PLD que aplicamos hoje é importada, seguindo diretamente as recomendações do GAFI/FATF. Além disso, a cooperação entre reguladores e organismos de integridade esportiva, que o Brasil já começou a adotar com acordos entre a SPA e entidades do setor, é algo já praticado nos mercados europeus. Por outro lado, o desenho de risco brasileiro tem uma particularidade própria: trabalhamos apenas com PIX, o que não existe em nenhum outro mercado regulado de apostas do mundo. Isso muda a lógica de risco por completo. Enquanto em outros países o risco de lavagem normalmente está na pulverização de canais de pagamento, aqui isso praticamente não existe. O PIX está atrelado ao CPF do titular da conta bancária, então depósito e saque tendem a estar amarrados à mesma identidade. O risco se desloca então para o comportamento dentro do próprio canal: volume de movimentação incompatível com a renda presumida do cliente, ou padrões que sugerem fracionamento de valores para não gerar alerta. Some-se o mercado ilegal, como os sites sem licença, que precisa ser combatido com canalização e fiscalização.
O amadurecimento de um setor depende também da troca de experiências entre seus profissionais. Qual é o papel de encontros como o G&M Eventos Brasil 2026 (13 de agosto em São Paulo) para aproximar Compliance, operadores, reguladores e fornecedores, e como esse diálogo pode contribuir para elevar os padrões de governança da indústria?
Os eventos fazem uma coisa que nenhuma regulamentação consegue cumprir sozinha: colocar reguladores, operadores e outros profissionais do setor na mesma sala, discutindo os mesmos problemas. É nesse tipo de espaço que se compartilham interpretações sobre pontos ainda ambíguos da regulação, se comparam práticas de mercado e se constrói um vocabulário comum. Para uma indústria tão nova e ainda em consolidação no Brasil, esse diálogo contínuo, que acontecerá no G&M Eventos Brasil 2026 e do qual a A2FBR fará parte, é o que evita que cada operadora resolva os mesmos dilemas de forma isolada e divergente, elevando o padrão de governança do setor como um todo, e não apenas de empresas individuais.







