
Por Tatiana Martins, jornalista na G&M News.
Qual foi a principal mudança na forma como as empresas de apostas brasileiras passaram a enxergar o papel das áreas Jurídica e de Compliance nesse novo cenário?
Na minha visão, as áreas de Jurídico e Compliance são pilares estratégicos para o crescimento sustentável de uma operação regulada. Elas deixaram de ser vistas como áreas que apenas impõem restrições e passaram a atuar como verdadeiras parceiras do negócio, viabilizando decisões com segurança jurídica, regulatória e reputacional. No mercado de quota fixa, o papel do Chief Legal Officer (CLO) e do Chief Compliance Officer (CCO) vai muito além da interpretação da legislação. Esses executivos precisam acompanhar de perto as mudanças regulatórias, participar das discussões sobre as melhores práticas nacionais e internacionais, manter um diálogo contínuo com reguladores e garantir que a empresa esteja preparada para responder rapidamente às novas exigências. Acredito que um Jurídico e um Compliance maduros agregam valor ao negócio ao identificar riscos de forma antecipada, estruturar processos eficientes e permitir que a empresa cresça de forma segura e sustentável. Por isso, vejo o papel do CLO e do CCO como o de um assessor estratégico da alta liderança, fornecendo subsídios para a tomada de decisões, fortalecendo a governança corporativa, promovendo uma cultura de ética e integridade e garantindo que a operação esteja em conformidade com as exigências regulatórias, sem perder agilidade e foco nos objetivos de negócio.
Em uma empresa de apostas, as decisões precisam ser rápidas, mas também seguras. Como é encontrar esse equilíbrio no dia a dia? Você acredita que é possível inovar sem abrir mão da segurança jurídica?
Conciliar a velocidade exigida pelo mercado regulado com a segurança jurídica e regulatória é, sem dúvida, um dos maiores desafios enfrentados pelos líderes de Jurídico e Compliance. Trata-se de um setor extremamente dinâmico, impulsionado por inovação tecnológica, novos produtos e constantes mudanças regulatórias. Em muitos momentos, a evolução do negócio acontece em um ritmo superior ao da legislação, exigindo decisões rápidas em cenários de incerteza. Nesse contexto, o papel do CLO/CCO, como meu role na HiperBet, é justamente transformar a conformidade em um facilitador do negócio, e não em um obstáculo. Isso exige profundo conhecimento do ambiente regulatório, atualização permanente sobre as normas aplicáveis e um olhar atento às melhores práticas adotadas em mercados mais maduros, permitindo orientar a empresa com segurança, pragmatismo e agilidade. Mais do que responder às demandas do dia a dia, o CLO/CCO deve atuar de forma preventiva, participando das discussões estratégicas e contribuindo para que a alta administração compreenda os impactos regulatórios de cada decisão. Na minha experiência, a melhor forma de equilibrar agilidade e conformidade é manter o tema regulatório presente nas discussões estratégicas da empresa. Quando Compliance e Jurídico participam desde o início dos projetos e das decisões de negócio, deixam de atuar apenas como áreas de validação e passam a contribuir para a construção de soluções viáveis, seguras e alinhadas aos objetivos da empresa. Acredito que esse modelo de atuação fortalece a governança corporativa e cria uma cultura em que a conformidade é percebida como um diferencial competitivo. O resultado são decisões mais rápidas, fundamentadas e sustentáveis, capazes de impulsionar o crescimento da operação sem comprometer a integridade, a reputação ou a conformidade regulatória da empresa.
O mercado regulado brasileiro ainda está em construção e certamente continuará evoluindo. Olhando para os próximos anos, quais temas você acredita que merecem maior atenção das operadoras para que o setor cresça de forma sustentável e com segurança?
O mercado ainda está em fase de consolidação e, naturalmente, continuará evoluindo nos próximos anos. A tendência é que o regulador aperfeiçoe continuamente as normas, nos avanços tecnológicos e nas melhores práticas internacionais. Nesse cenário, acredito que os operadores precisarão concentrar seus esforços em alguns pilares estratégicos. O primeiro deles é o fortalecimento da governança corporativa e da cultura de compliance. O jogo responsável também permanecerá no centro das discussões. O desafio dos operadores será equilibrar crescimento comercial com proteção ao consumidor, implementando mecanismos cada vez mais eficazes de prevenção ao jogo problemático, identificação de comportamentos de risco e promoção de um ambiente de apostas mais seguro. Outro tema de grande relevância é a prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo (PLD/FTP). Além disso, a proteção de dados e a segurança cibernética tendem a ganhar ainda mais protagonismo. Outro ponto indispensável é o combate efetivo aos operadores ilegais. A concorrência desleal compromete a efetividade da política regulatória, enfraquece os operadores que cumprem as regras e coloca em risco justamente os objetivos que motivaram a regulamentação: a proteção dos consumidores, a prevenção à lavagem de dinheiro e a promoção do jogo responsável. Por fim, considero que um dos principais desafios será fortalecer a relação entre regulador e mercado. Um ambiente regulatório maduro depende de diálogo permanente, transparência e colaboração entre autoridades, operadores e entidades do setor. Esse intercâmbio permite aperfeiçoar a regulamentação, solucionar desafios operacionais e criar um ambiente competitivo, íntegro e sustentável.
Qual é a importância de espaços como o G&M Eventos Brasil 2026 (13 de agosto em São Paulo) para aproximar profissionais das áreas jurídica, regulatória e de negócios, e como essas conversas podem contribuir para a evolução do mercado?
Encontros como o G&M Eventos Brasil 2026 desempenham um papel fundamental no amadurecimento do mercado regulado de iGaming. Mais do que oportunidades de networking, eles funcionam como verdadeiros fóruns de construção do setor, reunindo reguladores, operadores, fornecedores, especialistas, advogados e profissionais de Compliance para discutir os desafios e as oportunidades de uma indústria que ainda está em processo de consolidação no Brasil. Um dos maiores benefícios desses encontros é justamente aproximar as áreas jurídica, regulatória e de negócios. Em um mercado altamente regulado, o sucesso da operação depende de uma atuação integrada, em que as decisões comerciais estejam alinhadas às exigências regulatórias desde a sua concepção. Esse diálogo contribui para reduzir conflitos, aumentar a eficiência operacional e criar soluções que conciliem inovação, crescimento e conformidade. Além disso, esses eventos favorecem a troca de experiências entre mercados mais maduros e o mercado brasileiro. Também considero que esses fóruns são essenciais para aproximar o setor privado do poder público. O diálogo transparente entre operadores, reguladores e entidades representativas permite identificar desafios práticos da operação, esclarecer dúvidas sobre a aplicação das normas e contribuir para o aperfeiçoamento contínuo da regulamentação. Um ambiente regulatório eficiente é construído não apenas por meio de fiscalização, mas também pela escuta ativa e pela cooperação entre todos os envolvidos.







