
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
A sua liderança à frente do Casino é frequentemente associada a pilares como integridade, sustentabilidade e transparência. Na prática, como se equilibra a busca pela rentabilidade com uma operação estritamente ética no setor de jogos?
Antes de tudo o mais, independentemente do negócio em questão, esses são e serão sempre os pilares em que, na minha perspectiva, deve assentar a gestão de uma empresa ou de qualquer outro tipo de organização. Assim, como não poderia deixar de ser, a Integridade, a Sustentabilidade e a Transparência são o critério com que no Casino Azores tomamos as decisões todos os dias. Como aplicá-los ao caso do jogo em concreto? Começando por recordar a razão de ser dos casinos territoriais em Portugal. Quando o jogo foi legalizado, em 1927, o Estado optou por não o deixar entregue à clandestinidade. Em vez disso, circunscreveu-o a zonas de jogo delimitadas, concessionadas a empresas sujeitas a regras exigentes e a fiscalização permanente. Os casinos nasceram, assim, com uma dupla missão. A primeira era regular o jogo, para que fosse praticado de forma equilibrada e saudável, em espaços controlados. A segunda era gerar receitas que financiassem infraestruturas, o desenvolvimento turístico e cultural das regiões onde se implantavam e projectos de natureza social. Essa missão mantém-se plenamente actual. Uma parte muito significativa daquilo que os casinos geram continua a regressar à comunidade, através do imposto especial de jogo e das contrapartidas previstas nos contratos de concessão. Ser concessionária de uma zona de jogo é, por isso, assumir um compromisso que vai muito além do interesse da própria empresa, e é desse compromisso que parte a nossa forma de gerir.
Quais seriam as contribuições da empresa para a sociedade?
Encaramos os casinos como um negócio de longo prazo, com uma missão de intervenção positiva e construtiva na sociedade em que se integra. Trabalhamos, naturalmente, para obter resultados, porque deles depende a sustentabilidade da empresa, mas não nos orientamos pelo lucro imediato. Temos consciência de que o nosso mercado, para além de ser muito pequeno, tem um poder de compra mais baixo do que a média nacional. Por isso, optámos por devolver em prémios uma percentagem do volume de jogo bastante mais elevada do que os 80% preconizados na lei. Tentamos compensar esta política de margens baixas com o alargamento da nossa oferta. Actualmente, para além do jogo, exploramos restaurante, bares e galerias de arte, organizamos eventos e fazemos até catering, dentro e fora de portas. É a soma de todas estas actividades que suporta os nossos resultados. Quando falo em resultados, vou muito para além do lucro económico. Considero também o contributo que damos para que a sociedade em que nos integramos tenha um maior acesso à cultura, ao entretenimento e a eventos diferenciados que conciliam lazer e conhecimento. Em suma, o contributo do Casino Azores para a qualidade de vida dos residentes e para a experiência dos que visitam a região. Considero ainda como resultado, num sentido lato, a possibilidade de empregarmos quase uma centena de colaboradores, a quem procuramos proporcionar condições de trabalho e de remuneração que lhes permitam viver melhor. Não existem organizações perfeitas, é claro, mas tentamos constituir uma estrutura de suporte para os nossos colaboradores, uma segunda casa. Numa perspectiva mais pessoal, é muito gratificante saber que desenvolvemos com grande ética um negócio que, infelizmente, ainda é visto, por vezes, como pouco transparente. A verdade é que, como em qualquer sector de actividade, os códigos de conduta não são iguais em todas as empresas. Por isso é tão importante que os consumidores estejam esclarecidos e façam as escolhas certas, em tudo o que consomem. No jogo não é diferente. Hoje, o jogo está à distância de um clique, muitas vezes em plataformas que operam à margem de qualquer enquadramento legal. Nesse contexto, a missão de regulação com que os casinos territoriais nasceram ganha uma importância renovada: num casino físico, o jogo acontece num espaço aberto e fiscalizado, com regras claras e com rosto.
A adaptação constante e criatividade são marcas da sua gestão. Como é que a companhia se tem reinventado para competir com o crescimento exponencial do mercado do jogo online e das apostas virtuais?
O Casino Azores procura romper com preconceitos e estereótipos e diferenciar a sua oferta de tudo o que existe no mercado em que se integra. Para quê? Para alargar as possibilidades e as vivências a que os açorianos têm acesso no seu dia-a-dia. A verdade é que a nossa aposta nada tem em comum com o que o jogo online e as apostas virtuais oferecem. Proporcionamos experiências reais e partilhadas, num espaço com identidade. Na nossa perspectiva, o jogo deve ser praticado num ambiente saudável, com balizas e supervisionado, e deve trazer consigo convívio e socialização, algo que só os casinos físicos oferecem. Os casinos físicos são muito mais do que jogo. Na galeria de arte do Casino Azores, por exemplo, temos recebido exposições de pintura, fotografia, cerâmica e escultura. Temos realizado workshops e talks com palestrantes e convidados de grande qualidade, bem como eventos em torno da literatura, do cinema, da gastronomia e até do perfumismo, entre outros. Todos eles acrescentam diversidade e qualidade à oferta disponível para os residentes e para os turistas que visitam os Açores à procura de experiências. Apostámos também na restauração e nos bares, com espectáculos de música ao vivo todas as semanas. Estabelecemos ainda diversas parcerias com empresas, organismos públicos, escolas e clubes desportivos, com quem interagimos sempre numa perspectiva de contribuir e acrescentar. O resultado mais valioso deste caminho é a integração na comunidade, que acontece de forma muito saudável e construtiva. Sentimos que somos parte do meio em que nos inserimos, e que os açorianos já olham para o casino como sendo também um pouco deles. Mas reforço o que disse em 2024, em entrevista à vossa revista. Os casinos físicos só poderão continuar a desempenhar este papel, que esteve na génese da sua criação (contribuir para a oferta turística e para o desenvolvimento do meio em que se inserem), se operarem em condições justas do ponto de vista funcional e concorrencial. É, portanto, urgente rever a tributação e aliviar as obrigações, a burocracia e as limitações impostas aos casinos físicos. Estes confrontam-se com uma realidade oposta à que se aplica ao jogo online, às apostas virtuais e à raspadinha, cujo contributo para a sociedade é, no mínimo, discutível.
O perfil do apostador mudou. Quais são os principais cuidados e políticas de jogo responsável que o casino implementa hoje para proteger os seus clientes e garantir um ambiente seguro?
A primeira e principal medida de jogo responsável é o próprio ambiente que construímos. No Casino Azores, o jogo é uma das formas de entretenimento que oferecemos, mas não a única. O nosso objectivo é que o cliente desfrute de algum tempo de entretenimento e convívio nas slot machines e nas mesas de jogo tradicional. Mas queremos também que saboreie uma boa refeição, visite a exposição patente na galeria, participe nos workshops, talks e eventos, dance ou simplesmente assista aos espectáculos de música ao vivo. Recebemos com frequência aniversários, despedidas de solteiro e outras celebrações, e o nosso espaço acolhe muitas vezes famílias. Construímos um ambiente muito familiar, e é assim que o jogo deve ser vivido: como uma actividade de lazer, praticada num contexto justo e seguro. É verdade que o perfil do apostador mudou. Muitos dos nossos clientes chegam hoje já habituados ao jogo online, que se pratica sozinho, a qualquer hora, sem limites visíveis e sem ninguém por perto. Num casino físico acontece o oposto. Há pessoas que conhecem os clientes, que os vêem e que estão preparadas para perceber quando algo não está bem. Essa presença humana é, a meu ver, a maior vantagem dos casinos territoriais em matéria de jogo responsável. A isto juntamos o cumprimento rigoroso das regras do sector. O acesso às salas de jogo exige identificação e está vedado a menores. Os clientes que o desejem podem pedir a proibição voluntária de acesso aos casinos, um mecanismo de autoexclusão que respeitamos escrupulosamente. As nossas equipas recebem formação para identificar comportamentos de risco e para abordar esses clientes com discrição e respeito. Disponibilizamos também informação sobre os riscos do jogo e sobre as linhas de apoio existentes. Toda a actividade de jogo decorre sob vigilância e sob a fiscalização permanente das entidades de inspecção. Por fim, mantemos uma comunicação que, como sempre defendi, privilegia o lado lúdico do jogo e nunca a ideia de ganho fácil.
Estar sediado nos Açores traz uma forte ligação ao turismo. De que forma o casino beneficia da notoriedade internacional do arquipélago e quais são os grandes planos estruturais da empresa para o futuro próximo?
A notoriedade internacional dos Açores como destino de natureza, sustentabilidade e autenticidade tem trazido à região um número crescente de visitantes. São, em geral, pessoas que procuram experiências genuínas, que marquem a sua estadia. O Casino tem procurado ser uma dessas experiências, com uma oferta cultural, gastronómica e de entretenimento que complementa aquilo que o arquipélago já tem de extraordinário. Os Açores são um destino vivido sobretudo ao ar livre, durante o dia. O Casino oferece aquilo que, muitas vezes, falta ao fim do dia ou num dia de chuva: um espaço acolhedor, com boa mesa, música ao vivo, uma exposição para visitar e um ambiente animado. Contribuímos, assim, para enriquecer a oferta nocturna e de lazer da região e para prolongar a estadia e a satisfação de quem nos visita. Os casinos são, cada vez mais, produtos turísticos das regiões onde estão implantados, e essa foi, aliás, uma das razões de ser da sua criação. Quanto aos planos estruturais, o primeiro é concluir o investimento no Casino da Terceira, que inaugurará muito em breve e terá todas as valências do Casino de São Miguel: jogo, restauração, bar, espectáculos e um espaço dedicado à cultura. É um passo muito importante para nós, porque leva o projecto Casino Azores a uma segunda ilha, cria novos postos de trabalho e acrescenta oferta a quem vive e a quem visita a Terceira. Entre 2027 e 2029, desenvolveremos o projecto das novas instalações do Casino de São Miguel, um plano que tivemos de adiar devido à pandemia e que permitirá dar outra escala às nossas actividades. Para além disso, o compromisso é não parar de inovar: criar mais oferta e mais qualidade de vida para quem vive nos Açores, e mais experiências que marquem positivamente a passagem de quem nos visita.







