
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Como foi sua trajetória profissional em seus primórdios, os desafios, as perspectivas no novo cargo, e seu desenvolvimento junto ao Brazilian Lounge?
Antes de entrar no setor, eu já vinha da área de TI: montava sites e mexia com afiliação, mas fora da indústria de jogos. Minha entrada no iGaming aconteceu em 2017, em Londres, como Customer Support de uma das maiores operadoras da Turquia, que naquele momento estava abrindo operação no Brasil. Foi ali que conheci o Alessandro Valente, e foi ele quem me levou para o mundo da afiliação. Comecei na Super Afiliados numa fase em que a empresa estava reiniciando as operações. Fiz um pouco de tudo, e digo isso literalmente: passei por praticamente todas as áreas, o que me deu uma visão completa de como o negócio funciona por dentro. Quando a operação já estava estruturada e gerando receita consistente, o grupo passou a criar novas empresas. Uma delas foi o Brazilian Lounge, em 2023. Vale contar como o Brazilian Lounge nasceu, porque explica muito do que ele é hoje. A ideia surgiu de um problema concreto: quando a Super Afiliados montava stand em evento internacional, gastava com facilidade mais de 100 mil euros por dois ou três dias de evento. A solução foi ratear, criar um espaço compartilhado onde várias empresas dividissem estrutura e presença. Deu certo desde o primeiro dia, e o que era uma solução de custo virou outra coisa completamente diferente: um ponto de encontro dos brasileiros e todos os estrangeiros que têm algum interesse no Brasil ou América Latina. Eu já morava aqui no Brasil quando ajudamos a definir o Brazilian Lounge, ainda atuando na Super Afiliados. Depois de oito anos em afiliação, decidi respirar novos ares. O Brazilian Lounge passava por uma leve reestruturação, e cheguei com os sócios à decisão de assumir o projeto e levá-lo a outro patamar. Os desafios são os de sempre nesse tipo de transição: adaptar a operação às necessidades reais do mercado, entregar ao cliente aquilo que ele de fato quer, visibilidade e conexões que gerem negócio de valor, para a empresa dele e para o setor como um todo. Encontrei um time com uma cultura muito forte, construída pelo Alessandro Valente e pelo Yudi Osugui. Meu papel não foi reinventar nada; foi entender o que já funcionava e dar estrutura, processo e escala. Estamos numa fase de formalização, sistemas de gestão, processos comerciais claros, novas contratações, típico de uma empresa que cresceu rápido e agora precisa de uma matriz para crescer mais.
Quais são os projetos, estratégias e planos referentes ao Brazilian Lounge nesta nova etapa?
O Brazilian Lounge não é uma empresa de um produto só, e essa é a chave para entender para onde estamos indo. Operamos hoje quatro frentes: o podcast, o principal do setor na América Latina; a revista, trimestral e impressa; o coworking na Faria Lima, no coração financeiro de São Paulo, com parceiros estratégicos que se conhecem e fazem negócio no mesmo espaço; e a presença compartilhada em stands nos grandes eventos do setor. A tese central é ecossistema. O cliente entra por uma porta e naturalmente se expande para as outras: quem começa anunciando na revista acaba na Faria Lima, quem divide um stand conosco em Barcelona acaba no podcast. Por isso, toda a nossa estrutura interna está sendo redesenhada com o cliente no centro, não o produto. As prioridades desta etapa são três: 1) Profissionalização interna. Estamos implementando sistemas de gestão, CRM estruturado e processos formais de entrega, com uma área dedicada exclusivamente a garantir que o que foi vendido seja entregue com excelência, ponta a ponta; 2) Internacionalização. O Brasil é o palco principal de atuação, mas a marca já circula em ICE Barcelona e iGB L!VE em Londres, além dos eventos nacionais como BiS e Afiliados Brasil. Aliás, o foco do stand é justamente nos eventos fora do país: queremos ser a ponte de mão dupla, por onde a empresa internacional entra no Brasil e por onde a empresa brasileira se apresenta ao mundo, e 3) Conteúdo com credibilidade. Num mercado regulado, informação de qualidade vira ativo estratégico. A revista e o podcast cumprem esse papel, somando credibilidade à visibilidade e à exposição que entregamos. Uma novidade! Estamos agora com a opção de você se cadastrar em nosso site e receber a revista com toda a informação sobre a indústria, na sua casa.
Qual é o estado atual do mercado brasileiro das bets e seu processo de regulamentação, comparando com o mercado europeu, em especial o português?
Vou começar pelo tamanho, porque ele explica quase tudo. O Brasil fechou 2025 como o quinto maior mercado global de apostas, com mais de 25 milhões de apostadores únicos e cerca de R$ 36,9 bilhões em GGR, segundo dados oficiais da SPA. Foram R$ 8,8 bilhões arrecadados no primeiro ano de mercado regulado, com mais de 25 mil sites ilegais bloqueados em operação conjunta com a Anatel. Em doze meses, o país fez o que muitos mercados levaram uma década para construir. A comparação com Portugal é reveladora justamente porque os dois países estão em fases opostas. Portugal regula desde 2015, pelo Decreto-Lei 66/2015, sob supervisão do SRIJ. É um mercado maduro, estável, de escala reduzida e com importante crescimento no segmento online. O grande ponto de fricção lá é o modelo fiscal: Portugal é um dos poucos países europeus que tributa apostas desportivas sobre o volume apostado (8% sobre o turnover) em vez da receita bruta, enquanto o casino online paga 25% sobre GGR. Na prática, quando a margem é baixa, essa carga pode equivaler a algo entre 50% e 70% do GGR. É um modelo que comprime a competitividade do operador legal e, indiretamente, alimenta o mercado ilegal. O Brasil, ao optar por tributar sobre GGR, acertou nesse ponto de partida. O desafio brasileiro é outro: estabilidade normativa e previsibilidade. O setor convive com um fluxo constante de novas portarias, decisões judiciais e propostas legislativas. A Portaria SPA/MF nº 1.964/2026, por exemplo, passou a exigir advertências padronizadas ocupando pelo menos 10% da área de qualquer peça publicitária. Regras de proteção ao consumidor são legítimas e necessárias, mas quem investe precisa de horizonte para planejar. O ponto onde os dois mercados se encontram é o mercado ilegal. Nenhum regulador do mundo eliminou a oferta clandestina só criando regras; ela se adapta. Quanto maior o atrito no ambiente regulado, mais o consumidor migra. Esse é o teste real dos próximos anos, aqui e na Europa.
A G&M News realizará neste mês a terceira edição do G&M Eventos Brasil (13 de agosto em São Paulo), onde inclusive o Brazilian Lounge é importante apoiador. Como vê este movimento de eventos inseridos em um cenário onde a dinâmica da regulamentação está em todos os meios, e o mercado brasileiro sendo um foco mundial do setor?
Eventos sempre foram importantes neste setor, mas o papel deles mudou. Antes eram vitrine comercial; hoje são o espaço onde o mercado processa a regulamentação em tempo real. Quando uma portaria muda a regra de publicidade ou de meios de pagamento, é num encontro como o G&M Eventos Brasil 2026 que operadores, fornecedores, entidades e reguladores conseguem sentar-se na mesma sala e alinhar interpretação. Isso tem valor prático enorme num mercado que ainda está definindo seus contornos. O Brasil virou, definitivamente, foco mundial. Quem circula pelo ICE, por Londres, percebe que a pergunta deixou de ser “vale a pena entrar no Brasil?” e passou a ser “como entrar no Brasil do jeito certo?”. Chegar à terceira edição em São Paulo, com esse nível de convocação do setor, mostra que existe demanda real por esse espaço de encontro qualificado. Sobre a parceria com o G&M News: ela é anterior à minha chegada à frente do Brazilian Lounge e é exatamente o tipo de relação que quero preservar e ampliar. Não é patrocínio, é reciprocidade: o G&M News apoia o Brazilian Lounge, nós apoiamos o G&M Eventos, e os dois lados ganham porque acreditamos na mesma coisa: um mercado brasileiro mais informado, mais transparente e mais bem conectado. Num setor onde muita gente compete por atenção, quem constrói junto sai na frente. Estaremos presentes e à disposição de quem quiser conversar.







