
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Você sempre foi um defensor do mercado regulamentado como o único caminho seguro para proteger o apostador. Como você recebeu a decisão do Governo de editar a MP das bets e fechar o mercado de apostas online no Brasil? Você acredita que a proibição total resolve os problemas sociais ou apenas joga os usuários de volta para a total clandestinidade?
Foi um retrocesso para o trabalho de desenvolvimento de consciência dos jogadores que estávamos fazendo. Sem referência do que é legalizado, os jogadores são presas fáceis do mercado ilegal. Além disso, me preocupa bastante a insegurança jurídica que o Brasil sinaliza para os demais países. Os dados já mostram que a medida falha em remover jogadores do mercado e apenas os redireciona para a clandestinidade. Infelizmente, a minha expectativa é uma piora generalizada na saúde dos jogadores brasileiros, além de maiores problemas financeiros e endividamento.
Seu projeto atende cerca de 120 pessoas por mês que sofrem com o jogo problemático. Com a saída das bets regulamentadas do ar e o prazo de devolução dos saldos encerrado, você já notou alguma mudança no comportamento das pessoas que te procuram por ajuda?
As pessoas que me procuram por ajuda pedem basicamente orientação de como proceder para fazer autoexclusão nas plataformas, o que não é possível em bets clandestinas. O nosso suporte, que dependia do Instituto de Apoio ao Apostador como fornecedor de atendimento qualificado feito por psicólogos, também teve que cessar, pois o próprio IAA foi finalizado devido a MP. Os casos de ludopatia e intenções suicidas tendem a aumentar.
As operadoras regulamentadas possuíam mecanismos obrigatórios de jogo responsável. Sem essas travas legais no Brasil, como orientar os jogadores problemáticos que eventualmente migrarem para sites ilegais hospedados no exterior?
Nós orientamos que não joguem em sites ilegais, especialmente por não existir segurança para o jogador referente a autenticidade dos jogos, bem como ao próprio saque ser possível. Sem meios de controle, estamos orientando os jogadores a acionarem familiares para administrar suas contas bancárias como única forma de frear o jogo compulsivo. É uma situação triste e desesperadora, que aumentará os custos do próprio Sistema Único de Saúde (SUS) para tratar tantos jogadores com problemas com jogo. Vale ressaltar que parte do imposto arrecadado com as bets legalizadas teria finalidade de financiar o próprio SUS, cenário esse que não existe mais.
Sendo o único brasileiro finalista a ‘Influenciador do Ano na Indústria’ no Global Gaming Awards 2026, você tem contato direto com o ecossistema global de iGaming. Como o mercado internacional está enxergando essa guinada do Brasil, que passou de um dos mercados mais promissores do mundo para uma proibição total em poucos meses, e como você enxerga o futuro financeiro e profissional da engrenagem de influenciadores no Brasil diante da proibição das bets?
No Global Gaming Awards 2026, tive contato com players internacionais que consideraram o Brasil “carta fora do baralho” e “grande decepção”. Muitos tinham planejamento de aportar em operações próprias e obter licenças brasileiras em 2027, o que não irá mais acontecer. O futuro para os influenciadores segue dois caminhos. O caminho da maioria é simples: eles estão divulgando plataformas ilegais sem nenhum tipo de pudor, fiscalização ou punição. Para eles, nada mudou, exceto que agora sequer seguem regras do mercado legalizado de jogo responsável e avisos obrigatórios. Sem freio, os influenciadores em sua maioria estão fazendo um desserviço ao mercado e prejudicando os jogadores. Já aqueles que decidiram não divulgar plataformas clandestinas estão criando conteúdo educativo e tentando fazer a prevenção, para que os jogadores não entrem em plataformas ilegais. Esse esforço, entretanto, se mostra infrutífero. Dessa forma, há uma tendência de migração dos influenciadores responsáveis para outros mercados fora do iGaming, permanecendo apenas aqueles que mais atrapalham do que ajudam seus jogadores ao venderem-se para plataformas ilegais. A única esperança está numa reversão da Medida Provisória nº 1.394/2026 seja derrubada via judicial pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, no curto prazo. Também se espera a deliberação do Congresso Nacional para finalizar o tema antes que a MP tenha o seu prazo vencido e seus efeitos caducados. Não existindo reversão rápida, não sobrarão operadores legalizados no Brasil, visto que a grande maioria já encerrou sua operação no país e lutará judicialmente pelo ressarcimento dos valores gastos com a licença, além de compensações financeiras.







